domingo, 23 de setembro de 2012

Separação #1



Ele estava indo embora. Depois de toda tensão e esforço investido para que conseguissem ficar juntos, da raiva sempre engolida, estava partindo de sua vida, talvez para sempre, deixando para trás as noites que tiveram e a lembrança das amargas palavras que haviam cuspido um no outro no momento em que ela recebera a notícia. Apesar de bradado que estava pouco importando-se, que ele poderia morrer que não iria sequer chorar, na noite anterior, naquela manhã ensolarada gostaria de ter dito algo bem diferente. Talvez ele desistisse se ela se atirasse aos seus pés soluçando e implorando que não fosse, se apenas o abraçasse forte e pedisse que não a deixasse sozinha, que tivessem uma vida juntos e morressem juntos, ele teria ficado. Mas se ela tivesse feito isso, não seria quem era de verdade.
Ela permaneceu fitando a distância o rosto rude e franco que tantas vezes beijara e acalentara em seu busto feminino, ele ainda não a encontrara na multidão, por isso permitiu-se observar o ambiente por um segundo que fosse. Em todas as outras mulheres ao seu redor, despedindo-se de maridos, filhos, irmãos, noivos, namorados, o choro e as lágrimas predominavam, as promessas feitas que jamais seriam cumpridas. A dor era quase palpável, podia-se sentir seu cheiro entranhado nas paredes daquele pátio cinzento e deprimente. Mas de sua face, de seus olhos, havia a expressão rígida e gélida que adotara, sem choro e nem lágrimas. Era assim que se despedia dele.
A família dele há algum tempo tinha ido, de modo que estava de pé junto aos demais homens, fardado, a expressão de soldado tomando toda sua face, os ombros tensos, os olhos fingindo desinteresse, porém esforçando-se para encontra-la. Junto aos demais não chamava muita atenção, mas ela sabia que, em trabalhos individuais, qualquer que fosse, jamais deixava de se esforçar para cumprir e não fazia nada menos que perfeito. Não fora por acaso que conquistara a fama de ser o melhor. Lembrava-se das noites que ele chegava cansado, porém feliz narrando os feitos daquele dia enquanto ela o ajudava a despir a farda pesada e beijava-o...
Os olhos de ambos se encontraram, finalmente. Os dele, sérios e vazios, os dela dolorosamente frios. Sem choro, sem lágrimas nem desespero, apenas a certeza de que nunca mais voltaria a ouvir o entusiasmo na voz masculina a lhe contar sobre seu dia, e que não teria mais o colo feminino onde repousar a cabeça e esquecer as frustrações cotidianas. Conformidade. Apesar das cenas ao redor de ambos serem quase tocantes, nada era mais intenso do que o contato visual entre os dois, pois ali, juntos, um nos olhos do outro, reviviam tudo que haviam tido juntos. Despediam-se e choravam sem derramar lágrimas. Adeus, boa sorte.


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