A dor fora o sentimento mais
presente e remoto em toda sua vida. Queimava-se numa certa frequência com fogo
quando criança e chorava, berrando o quanto ardia, pedindo que parasse,
soprando, pondo as mãos sob a água para aliviá-las. Muitos anos depois, tornara-se
silenciosa quando a sentia, guardando para si, na mais vaga esperança que não
afetasse aqueles ao seu redor. Vivia sob um disfarce, um sorriso e uma piada
nos olhos, os nervos de aço, aceitando dia após dia ser humilhada por outros e
permanecer em silêncio. Enquanto dias eram insuportáveis, as noites eram
torturantes. Deitar-se buscando o calor dele sem nunca o encontrar, e afogar-se
num mar de mantas frias e vazias, e por mais cansada que estivesse, o resvalar
para o sono profundo às vezes era um processo longo e doloroso. A lembrança da
voz masculina junto à sua orelha vinha tão forte como se sempre estivesse ali,
latente, esperando o momento oportuno para atacar seu peito. Deitava de lado,
dobrando-se em duas, agarrando os joelhos infantilmente somente a desejar que
estivesse ali, a pensar e imaginar as coisas que lhe diria ao tocar e beijá-lo
no rosto. Alguém, ao abrir a porta e espiar ali, veria uma pessoa enrolada e
adormecida, porém os olhos permaneciam abertos, fitando qualquer coisa desinteressante,
buscando ver o que queria. Dizem que mentalizar um desejo ajuda para que se
realize, mas tudo o que tornava-se real era a falta terrível que sentia, no
deslizar salgado e úmido pelas bochechas, e mesmo inconsciente, no teórico
mundo inocente dos sonhos, as lágrimas estavam ali. Não ajudava pensar nele,
não era como colocar as mãos sob a água e sim dentro do fogo. Via imagens
quando dormia, uma sucessão de flashs com suas cenas preferidas – um beijo, uma
risada, uma carícia delicada, uma piada boba – ou um filme ininterrupto e
repetido em sua cabeça, reais com cheiros, sons e cores. E chorava. Lágrimas
que secavam antes do amanhecer, quando punha novamente o sorriso e a piada nos
lábios, a máscara a ser sustentada, por mais um longo e insuportável dia.

É o dom de passar a sensação e sentimento. ♥ Lindo.
ResponderExcluir