domingo, 23 de setembro de 2012

Sentimento #1



A dor fora o sentimento mais presente e remoto em toda sua vida. Queimava-se numa certa frequência com fogo quando criança e chorava, berrando o quanto ardia, pedindo que parasse, soprando, pondo as mãos sob a água para aliviá-las. Muitos anos depois, tornara-se silenciosa quando a sentia, guardando para si, na mais vaga esperança que não afetasse aqueles ao seu redor. Vivia sob um disfarce, um sorriso e uma piada nos olhos, os nervos de aço, aceitando dia após dia ser humilhada por outros e permanecer em silêncio. Enquanto dias eram insuportáveis, as noites eram torturantes. Deitar-se buscando o calor dele sem nunca o encontrar, e afogar-se num mar de mantas frias e vazias, e por mais cansada que estivesse, o resvalar para o sono profundo às vezes era um processo longo e doloroso. A lembrança da voz masculina junto à sua orelha vinha tão forte como se sempre estivesse ali, latente, esperando o momento oportuno para atacar seu peito. Deitava de lado, dobrando-se em duas, agarrando os joelhos infantilmente somente a desejar que estivesse ali, a pensar e imaginar as coisas que lhe diria ao tocar e beijá-lo no rosto. Alguém, ao abrir a porta e espiar ali, veria uma pessoa enrolada e adormecida, porém os olhos permaneciam abertos, fitando qualquer coisa desinteressante, buscando ver o que queria. Dizem que mentalizar um desejo ajuda para que se realize, mas tudo o que tornava-se real era a falta terrível que sentia, no deslizar salgado e úmido pelas bochechas, e mesmo inconsciente, no teórico mundo inocente dos sonhos, as lágrimas estavam ali. Não ajudava pensar nele, não era como colocar as mãos sob a água e sim dentro do fogo. Via imagens quando dormia, uma sucessão de flashs com suas cenas preferidas – um beijo, uma risada, uma carícia delicada, uma piada boba – ou um filme ininterrupto e repetido em sua cabeça, reais com cheiros, sons e cores. E chorava. Lágrimas que secavam antes do amanhecer, quando punha novamente o sorriso e a piada nos lábios, a máscara a ser sustentada, por mais um longo e insuportável dia. 


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